quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Guia do Mochileiro das Galaxias (nota 7)

Todo nerd que se preze conhece O Guia do Mochileiro das Galáxias, a trilogia de cinco livros escrita pelo britânico Douglas Adams, e considerada a maior obra de ficção científica/comédia da literatura. E isso não é dizer pouco, os livros são geniais, com um humor ácido, sarcástico, que me fez gargalhar em alto e bom som como nenhum livro antes. Então o grande desafio do filme que adapta o primeiro livro enfrenta é fazer jus a toda essa fama, e ele ao mesmo tempo que consegue brilhantemente transpor para a tela as páginas do livro, consegue também demolir o conceito com a parte do enredo que cria além do livro, consequentemente arruinando a chance de qualquer continuação. Já explico isso melhor.
O Guia é um tipo de enciclopédia de todo o conhecimento universal em cuja contracapa estão impressas em letras amigáveis as palavras NÃO ENTRE EM PÂNICO, e Ford Prefect é um alienígena que está locado na Terra para fazer pesquisa para o guia. Seu amigo terráqueo Arthur Dent é um típico inglês que não desconfia que o planeta está prestes a ser demolido por uma raça alienígena burocrática chamada Vogons, para que seja construída uma estrada hiperespacial. Para sobreviver eles pegam carona na nave do Presidente da Galáxia, Zaphod Beeblebrox, que busca o planeta Magrathea. Essa descrição parece boba e não chega aos pés do que é O Guia, mas ajuda aqueles que não conhecem a começar a entender.
Durante toda a viagem de Arthur Dent, O Guia fornece várias explicações hilárias sobre as peculiaridades do universo. E nesse ponto o filme soube incorporar de forma incrível essas explicações, seja sobre a origem do motor de improbabilidade infinta que impulsiona a nave Coração de Ouro, a explicação sobre a criação do universo, ou todo o pensamento de uma baleia que foi materializada na extratosfera de Magrathea até seu encontro com o chão. Vale aqui transcrever as primeiras linhas do livro que já mostram a genialidade do autor:
"Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.
Este planeta tem ― ou melhor, tinha ― o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a idéia perdeu-se para todo o sempre."
 
Como escrevi acima, o filme consegue transpor bem o humor do livro, mas falha na hora de aumentar o conteúdo na tela. Toda a história extra criada com base no romance entre Arthur Dent e Trillian, talvez para tornar o filme mais "aceitável" pelos padrões hollywoodianos dão uma boa segurada no desenvolvimento do enredo. Com isso, a conclusão do filme, que alterou completamente o final do livro, tornou impossível qualquer continuação compatível com o segundo livro, O Restaurante no Fim do Universo. A escolha dos atores está muito boa, em um especial elogio tem que ser feito para Sam Rockwell, que entregou um imprevisível e bizarro Zaphod.

No geral eu gostei do filme, mas não gostei das adições que fizeram ao enredo original. O humor inglês non-sense ácido foi mantido, e pode servir para aqueles que não conhecem os livros a se interessar e correr atrás da genial obra completa de Douglas Adams, não sem antes pegar suas confiáveis toalhas.

2 comentários:

Cristiano disse...

Você postou usando sua toalha?

Felipe disse...

QUASE... deveria ter feito isso.